Conto de todos os cantos: Zé Lopes


Foto de Zé Lopes retirada do livro "Vamos ver a banda passar".

Figura importante de Nova Lima/MG, o músico José Lopes Filho, mais conhecido como Zé Lopes, é uma lenda viva da centenária Corporação Musical União Operária. Participante da banda há quase 70 anos, é o responsável pelo instrumento musical bombardino desde os dezesseis.


Filho do também músico José Lopes Guimarães, viveu grandes momentos dentro do grupo. Inclusive, quando o ex-presidente Juscelino Kubitschek tomou posse, em 1956, ele teve a oportunidade de tocar nas festividades.


Conheça mais sobre Zé Lopes a partir da entrevista realizada pelo arte-educador Pablo Araújo do Projeto Arte Por Toda Parte Nova Lima e conheça mais sobre o músico. Continue a leitura!



Sr. José Lopes, qual é a sua relação com a música e quando começou a tocar?

Eu não sei muito falar de mim não, é difícil! Comecei a estudar e aprender sobre música com o meu pai, quando estava com 11 ou 12 anos. Só estudei teoria por três meses, até que meu pai me arrumou um método muito bom, chamado “Tábula”. Era um método utilizado pelo exército italiano. Mas, ainda assim, com muito sacrifício, só consegui chegar ao meio do método. Aprendi muita coisa de ouvido com meu pai, o senhor José Lopes Guimarães.


Depois, com 16 anos, entrei para a banda Corporação Musical União Operária. No início eu tocava o bombardino — meu pai também foi bombardinista na mesma banda —, porém a música não saía. Então, acabaram tirando o bombardino da minha mão por um tempo e eu fui para o trombone de pisto.


Fui trombonista dos 16 aos 20 anos, tocando tudo de ouvido. Mas, nesse caminho como autodidata, acabei conseguindo tocar o bombardino depois e fui o primeiro bombardino da banda, o que dura até hoje: dos 16 aos 85 anos.


Logo da Corporação Musical União Operária de Nova Lima/MG.

Conte um pouco mais sobre a sua trajetória enquanto músico.

Nessas andanças, a gente sempre observa uma coisa, observa outra e vai aprendendo no caminho. Antigamente acontecia muito de uma pessoa não querer te ensinar para que você não ultrapassasse ela. Mas hoje está tudo diferente: vem tudo escrito, tudo beleza e as partituras estão muito mais acessíveis de encontrar.


Nessa trajetória, toquei com alguns conjuntos, em orquestras e com meu pai. Por exemplo, já toquei com uma orquestra em Raposos/MG, com o João Barbeiro, e fizemos muita música boa juntos.


Além disso, toquei como o Zé Fuzil, que tinha a Orquestra American Jazz em Nova Lima. Com ela, tocamos em carnavais por 30 anos! Também foi nessa orquestra que comecei a tomar mais gosto pela música, a procurar coisas que eu não entendia e a caprichar. Isso porque o Zé me explicava, mas não dizia o que fazer, apenas assobiava as melodias e eu tirava de ouvido. Ele era um grande músico e multi-instrumentista.



Nascido em 1920 em Cachoeira do Campo, distrito de Ouro Preto, José Acácio de Assis Costa, Zé Fuzil estabeleceu-se em Nova Lima, para onde foi em busca de trabalho na Mineração Morro Velho. [...] Em Nova Lima, Zé Fuzil logo passou a integrar a banda União Operária, na qual ficou por mais de 40 anos, tocava trompa, trombone, bombardino, além de trabalhar na carpintaria da mineradora onde se aposentou, em 1948. Recebeu a batuta do maestro Vilela Juvenal Alves Vilela mantendo-se nessa função até 1994. Falecido em 1996, o músico transitava com desenvoltura entre as funções de Regente da União Operária, de bandolinista do grupo de choro Ferro Velho e de trombonista nos Blocos dos Sujos e na charanga do Vila Nova, o time de futebol da cidade. — Trecho do livro “Vamos ver a banda passar”



O senhor poderia comentar mais a Corporação Musical União Operária?

A Corporação foi fundada em 1915 pelo José Nery dos Santos. Ele fundou a banda com o seguinte detalhe: transformou seus alunos em músicos para fundá-la. Na época, o mais velho deles tinha 14 ou 15 anos.


Meu pai também foi regente e formou muitos músicos da banda. E enquanto bombardinista, não havia música difícil para ele. Para decorar uma melodia, ele tinha uma facilidade tremenda. Depois de uma leitura à primeira vista já conseguia tocar a música de cor.



A percussão da União Operária é formada pelo tradicional trio de percussão, bumbo, caixa e prato mas, conciliada com uma bateria americana, comumente usada na música popular. A banda usa também o saxofone barítono, um instrumento grave, que substitui de forma eficiente a tradicional tuba ou sousafone. A presença desses instrumentos na banda mostra que instrumentos modernos podem conviver com os instrumentos mais antigos, sem que haja uma descaracterização do tradicional formato da banda de música. — Trecho do livro “Vamos ver a banda passar”


Há alguma história interessante ou marcante que o senhor gostaria de contar?

Sim, deixa eu te contar uma história… Antigamente, quando se dizia que ia fazer um “choro” significava que iria fazer um conjunto. Um dia, o Sabino [músico de Nova Lima] fez um conjunto semelhante ao Ferro Velho — conhecido conjunto da época formado pelo músico Zé Fuzil — e ambos tocavam muito na cidade. Havia dois violões, um cavaquinho, um bandolim e um contrabaixo. Um dia, o Sabino chegou na casa do Zé Fuzil e disse que queria conversar o seguinte:


— Estou com um grupo muito semelhante ao Ferro Velho e gostaria de combinar um preço para fazer as apresentações — disse o Sabino.


— Que isso! Isso não é problema. Quando for para receber, você vai. E quando for de graça, manda para mim — respondeu o Zé Fuzil.


Nisso, Sabino discordou prontamente, mas o Zé fuzil disse para ele não esquentar a cabeça, porque ele gostava de servir aos amigos e de tocar. Para ele, a música vinha em primeiro lugar.

O Conto de todos os cantos sobre Nova Lima conta com o patrocínio da Vallourec via Lei de Incentivo à Cultura.

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