Conto de todos os cantos: Guarda de Moçambique de Córrego Ferreira


Cerca de 10 pessoas trazem vestimentas tradicionais e instrumentos da Guarda.
Apresentação da Guarda de Córrego Ferreira: Créditos: arquivo pessoal

Devotos de Nossa Sra. do Rosário e de São Benedito, os integrantes da Guarda de Moçambique de Córrego Ferreira possuem um orgulho imenso por fazer parte deste movimento e por poderem expressar sua fé através da música.


As festividades e apresentações da Guarda acontecem em Córrego Ferreira, distrito de Brumadinho/MG, e contam com um grande grupo de pessoas envolvidas pela tradição e adoração aos santos.


Para contar um pouco da história desta Guarda, foram entrevistados alguns membros e um ex-integrante do grupo: Maria das Graças Melo, Vera Lúcia Ribeiro, Vicente Anatólio e Adão de Melo. Leia a entrevista realizada pelos arte-educadores Fernanda Nascimento, Pablo Araújo e Priscila Mathilde abaixo!



Contem um pouco sobre a história da Guarda de Córrego Ferreira.

Adão: A Guarda surgiu com a nossa família vindo para Córrego Ferreira. Ela foi fundada há 27 anos, em 1994. Jesus Batista, quando começou com o movimento da Guarda, não tinha nenhum instrumento. Então, ele pegou baldes e latas e começou a brincar, foi batendo, fazendo música, sempre às tardinhas.


Com isso, um punhado de gente se juntou: dançando, cantando e tocando, assim a Guarda se formou. Depois de um tempo, a Guarda ganhou uma caixa que se juntou aos baldes e latas. As pessoas que participavam também começaram a contribuir para a comprar e fazer outros instrumentos.


O cortejo sai com os tocadores, o capitão, os reis, as rainhas, príncipes e princesas. Tem crianças que dançam e pessoas mais velhas também. Usamos a roupa branca e azul, fazemos uma camisa igual para todos e cada um customiza a sua vestimenta nas cores.


Vocês poderiam nos contar sobre as músicas e instrumentos da Guarda?

Adão: Na Guarda, nós usamos os instrumentos caixa, patangome e goiás. O goiás a gente coloca no pé. Em alguns lugares, ele é chamado de gunga e é feito de latinha de massa de tomate.


Sobre as músicas, a gente vai inventando. No dia a dia, os versos vão saindo e a gente inventa. Tem músicas com versos menores e as ladainhas, que têm versos maiores. Também criamos a partir dos momentos, por exemplo, tem músicas para o Rei e a Rainha, de celebração, para quando morre alguém, de chegada e de despedida.


Membros da Guarda em fileira com estandartes e instrumentos.
Guarda de Moçambique de Córrego Ferreira. Créditos: arquivo pessoal

Como é organizada a festa da Guarda?

Adão: Antigamente a Festa da Guarda acontecia na casa de minha mãe, depois a prefeitura cedeu um terreno e fizemos um salão, uma Igreja para a Irmandade de Nossa Sra. do Rosário e de São Benedito.


A Guarda de Moçambique de Córrego Ferreira organiza a festa de setembro que acontece na Igreja. Nesse momento, a gente convida outras Guardas. Na festa, o Rei e a Rainha fornecem o almoço e eles ficam responsáveis por organizar quantas Guardas são convidadas. É um dia muito festivo e alegre, muita gente vem. São mais de 500 pessoas e durante toda a novena fica cheio de gente.


A Guarda também é convidada para participar de outras festas de Guardas. Assim, uma sempre está trocando com a outra, uma ajudando a outra em sua festa.


Por quais lugares a Guarda de Córrego Ferreira já passou?

Adão: A Guarda já se apresentou no Barreiro, em Piedade do Paraopeba, em Brumadinho, em Sabará e em outros lugares.


Vocês poderiam nos contar sobre a história de São Benedito?

Maria das Graças: Os santos protetores da Guarda são a Nossa Sra. do Rosário e o São Benedito. São Benedito era cozinheiro. Na imagem, ele está carregando um menino branco no colo porque a história fala que ele pegou um menino abandonado e o criou. Dizem que ele cozinhava e distribuía a comida para as Guardas. Ele dava comida para quem estava com fome. Por isso, a comida nunca faltava e muita gente tem fé nele.



Como é participar da Guarda de Córrego Ferreira?

Maria das Graças: Sou nascida e criada em Córrego Ferreira. Nela, toco patangome. Mas primeiro, eu fiz parte da Guarda no Barreiro, em Belo Horizonte, com uma tia. Depois, nós montamos a Guarda de Córrego Ferreira. Minha mãe era a Rainha, e todos nós, seus dez filhos, fizemos parte.


Todas as Guardas de Moçambique tomam café na minha casa quando é dia da Festa. Eu mesma faço as quitandas. Começo a preparar tudo na quarta-feira: arrumo as mesas, deixo tudo preparado e faço broa de fubá, rosquinha, rosca e cubu. Me sinto muito alegre de receber as Guardas na minha casa e de poder preparar tudo.


Vera: Eu era esposa do irmão da Maria das Graças, que deu início à Guarda. Ele teve um sonho e começou todo o movimento. A mãe dele, chamada de Tia Maria, era muito devota de Nossa Sra. do Rosário e de São Benedito. Posso dizer que eu sou muito forte e me inspiro nela, que era muito forte também.


Comecei como secretária, depois ajudei com os instrumentos. Hoje, carrego a bandeira, saio na frente: é uma grande responsabilidade. Ela fica guardada na minha casa. Antes de uma apresentação a gente reza e beija a bandeira. A emoção de sair nos cortejos da Guarda é muito grande, não dá nem para explicar. Um dia que não pude sair, fiquei muito triste, porque é uma emoção muito boa. Digo que só saio da Guarda quando eu morrer.


Gosto muito de um verso: “Ô minha mãe, ô minha mãe amada / Quem tem tua mãe tem tudo / Quem não tem mãe não tem nada”

Comentem um pouco sobre a construção da Igreja da Guarda.

Seu Vicente: Antigamente, a gente cortava bambus, deixava secar uns quinze dias para ficar mais leve. Depois juntava e fazia a tenda na casa da Dona Maria, mãe da Maria das Graças. Às vezes era muito difícil, mas era tão gostoso!


A gente lutava, não tinha muito onde guardar os instrumentos e nem onde reunir mais gente. Mas fazíamos com amor e, quando acabava a novena, a gente ficava numa tristeza porque tinha acabado...


A gente teve algumas promessas de terreno, mas nunca aconteceram. Eu fazia caminhadas com o Nosso Sr. dos Passos pela rua, rezava o terço e pedia para ele que a gente conseguisse o espaço.


Em 2014, a Prefeitura cedeu o terreno, tivemos o documento e foi quando começamos a construção. Tudo com a ajuda de muita gente para construir e feito em fins de semana. É muita devoção, muita fé. A pessoa que tomou a benção de Nossa Sra. do Rosário não larga mais.


Eu não era da Guarda, participei quando era pequeno. Não tinha tempo por causa do meu serviço, mas era ignorância. Quando você segue Nossa Senhora, as coisas vão para frente.

O Conto de todos os cantos sobre Brumadinho conta com o patrocínio da Vallourec via Lei de Incentivo à Cultura, e com o apoio do Comitê Local de Piedade do Paraopeba e da Associação dos Moradores da Comunidade de Suzana (AMOCOS).


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