Conto de todos os cantos: Joseane Jorge e Benedikt Wiertz



Moradores de Brumadinho/MG, na Encosta da Serra da Moeda, a culinarista e arquiteta Joseane e o ceramista Benedikt possuem um espaço voltado para encontros, residências e imersões: o Ateliê Xakra 88.


Há cinco anos na região, desenvolvem trabalhos que unem culinária e cerâmica e abrem a casa para hospedar artistas e promover trocas. Juntos, eles compraram o terreno na região de Suzana e têm a intenção de valorizar os alimentos e as produções da localidade.


Conheça mais sobre o trabalho do casal na entrevista abaixo, realizada pelos arte-educadores Priscila Mathilde, Fernanda Nascimento e Pablo Araújo. Leia a seguir!


Uma das instalações do Ateliê Xakra 88. Créditos: Teatro da Pedra

Quando vocês se mudaram para Suzana, em Brumadinho?

Benedikt: A gente comprou esse terreno junto com outro amigo artista há uns sete anos. E, assim que fizemos nossa primeira construção, viemos para cá. Isso tem mais ou menos cinco anos.


Na verdade, nós conhecemos essa região há uns 25 anos. Eu era professor da Escola Guignard, em Belo Horizonte. Quando saí de lá, a gente ficou procurando um lugar para montar um ateliê maior e encontramos este lugar.


A gente teve essa ideia por causa de vários ceramistas que estão aqui na região, principalmente por causa da Toshiko, que foi uma ceramista japonesa. Através dela vieram outros ceramistas. Tem uns 15 a 20 ceramistas na região.


Benedikt, de onde vem o seu interesse pela cerâmica?

Desde criança, quando ainda morava na Alemanha. A gente morava em uma parte do país que, antigamente, fazia parte do Reino Romano. Nessa parte, havia manufaturas desses tempos. Então, sempre encontrávamos vestígios.


Por exemplo, quando os agricultores removiam a terra, a gente passava lá e pegava os cacos. E era uma coisa com a qual a gente sempre ficava encantado. Também tinha uma região próxima em que era muito forte na produção industrial de cerâmica. Por isso, desde pequeno tinha uma ligação com a cerâmica.



E quando você começou a trabalhar realmente com esta forma de arte?

Em 1977, morei em uma casa ocupada lá na Alemanha em que havia um ceramista e nós fizemos um trabalho com crianças imigrantes. Este foi o meu primeiro contato com a produção de cerâmica.


Depois, quando fui para a Espanha, conheci vários ceramistas e passei a me dedicar 100% à cerâmica. Já quando cheguei no Brasil, fiz um concurso e entrei para a Escola Guignard da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG). Lá, estive como professor por 20 anos como professor e quando eu saí, decidi voltar com o meu ateliê para desenvolver uma produção própria porque é uma energia muito boa.


Contem um pouco sobre a construção do espaço cultural de vocês.

Joseane: Nós compramos esse terreno, estamos construindo tudo juntos e é algo para a vida toda. Com a pandemia, pude ficar aqui direto e passamos a estar mais presentes. Antes, eu ficava “meio a meio” porque o trabalho com a gastronomia é muito móvel e eu participava de vários eventos.


Quais trabalhos e ideias vocês desenvolvem no Ateliê Xakra 88?

Joseane: Em relação ao trabalho com culinária, tenho interesse em agenciar conexões com as produtoras da região e aproveitar as coisas que são feitas aqui. Então, sempre estou de olho em tudo o que tem disponível para aproveitar o que será descartado ou que sobra.


Dentre as experiências que a gente tem da culinária com a cerâmica, a fermentação foi o que mais avançou. Há uma constância de experimentações, então sempre estamos produzindo alimentos fermentados a partir do que tem disponível.


Por exemplo, tem um pote de cerâmica próprio para fazer os fermentados e no qual cabem até 25 litros. sempre experimentando e inventando coisas novas. A gente vai fazendo e aprendendo, nunca teve nada que deu muito errado.


Além disso, neste espaço que construímos, tanto ele [Benedikt] quanto eu recebemos hóspedes. Então, há essa possibilidade de fazer experiências relativas ao trabalho do Bene ou ao meu. Este espaço é um lugar para partilhar, fazer residências e encontros.



E a ideia é essa: dar outro sentido, para além de alugar para pessoas se hospedarem, e para fazer encontros ligados aos trabalhos que a gente faz.

E vocês já receberam alguém aqui para essas trocas?

Benedikt: Em março, recebemos um amigo nosso da Guatemala que veio para passar dez dias e ficou cinco meses porque, com a pandemia, não conseguiu mais voltar. Com isso, fizemos trabalhos juntos. Ele participou da Bienal de Berlim, e nós fomos produzindo aqui na casinha.


Joseane: Também teve até uma professora de Filosofia, chamada Bárbara, que veio durante a pandemia para aprender e morou aqui por um mês. Ela foi embora fazendo tanto a parte de chef de culinária em casa quanto a parte da cerâmica. A Bárbara veio com um caderninho e foi anotando tudo. Hoje em dia, nos manda foto dos pratos que faz, arrumou um jeito de construir um forno próprio no apartamento onde vive e já tá fazendo peças como jóias e coisas pequenas.


Joseane, há algum prato ou hábito gastronômico específico desta região que você acha interessante?

Joseane: Sim, o Cubú. Aqui em Suzana, temos o Seu Vicente, que faz a Festa do Cubú — que é a mesma de São João, mas que o pessoal daqui chama assim. A festa é super tradicional, tem pau de sebo e forninhos de cupim. Cada um leva uma coisa: um leva coalhada, outro leva fubá, um leva quentão, o outro a cachaça. Tudo é feito de forma coletiva pela comunidade e as pessoas já têm essa responsabilidade.


Além disso, também tem o Renê do Lázaro, que faz comidas de fogo não, de tropeiro, de cavalhadas. Ele é muito caprichoso e generoso, que organiza a Queima do Alho, festa produzida junto com o pessoal do distrito de Palhano.

O Conto de todos os cantos sobre Brumadinho conta com o patrocínio da Vallourec via Lei de Incentivo à Cultura, e com o apoio do Comitê Local de Piedade do Paraopeba e da Associação dos Moradores da Comunidade de Suzana (AMOCOS).


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